Itaú Cultural Play: mostra em homenagem a Julio Calasso, outra com produções audiovisuais contempladas pelo Rumos e estreia de série

Julio Calasso morreu em junho de 2021 aos 80 anos. (Folhapress)

A plataforma reúne seis filmes do cineasta paulistano, sendo quatro documentários e duas ficções. Também coloca no ar a série de curtas Crônicas não ditas, concebida pelo coletivo Manifesto Impromptu e pelo grupo teatral Núcleo Bartolomeu de Depoimentos. Em cinco episódios, ela costura histórias que se passam nos anos mais duros da ditadura. A mostra Coleção Itaú Cultural, por sua vez, congrega 10 filmes resultantes de projetos contemplados pelo Rumos Itaú Cultural

 

A partir da sexta-feira, dia 16 de dezembro, a Itaú Cultural Play celebra o cineasta produtor e ator Julio Calasso (1941-2021) reunindo seis filmes pouco conhecidos de sua filmografia. São eles: Plínio Marcos – nas quebradas do mundaréu, de 2014, Longo caminho da morte, de 1971, O incrível encontro, de 2011, Electra na Mangueira, de 2012, Electra no Municipal, de 2013 – todos estes com direção do paulistano – e O baiano fantasma, de 1984, dirigido por Denoy de Oliveira, com Calasso no elenco ao lado de José Dumont, Regina Dourado e Sérgio Mamberti.

Na mesma data, o público pode conferir a estreia da série de curtas Crônicas não ditas, de Cláudia Shapira, Tatiana Lohmann, Azul Serra e Bianca Turner. Concebida pelo coletivo Manifesto Impromptu e pelo grupo teatral Núcleo Bartolomeu de Depoimentos, a série usa diferentes linguagens, do teatro à poesia do slam, costurando um mosaico de narrativas pessoais. Com realização do Itaú Cultural, ela é composta por cinco curtas, de nove minutos cada um, (O intruso, O encontro, O Happening, A mácula e A dor). Na mostra  permanente na plataforma Coleção Itaú Cultural, reúne, agora, mais  10 produções audiovisuais contemplados pelo edital Rumos Itaú Cultural.

Com mais de 500 títulos disponíveis de todas as regiões do Brasil e gratuita, a plataforma voltada exclusivamente para o audiovisual brasileiro pode ser acessada pelo site www.itauculturalplay.com.br ou pelo App nos dispositivos móveis Android e IOS.

 

Julio Calasso

O paulistano foi um militante incansável da cultura. Inspiradora e diversificada, sua trajetória se desdobrou pelo cinema, teatro e música, sempre em momentos-chave da cultura moderna no país – das encenações no Teatro Oficina ao surgimento do cinema marginal em São Paulo, nos anos de 1960. Calasso trabalhou com cineastas como Rogério Sganzerla, Carlos Ebert, Jairo Ferreira e Denoy de Oliveira. Lançou discos memoráveis de artistas como Moraes Moreira, Itamar Assumpção, Joelho de Porco, Novos Baianos e outros. De sua jornada pelo cinema brasileiro nasceu uma filmografia pouco conhecida que a Itaú Cultural Play apresenta ao público nesta mostra.

 O drama ficcional Longo caminho da morte foi o primeiro longa-metragem de Calasso. Nele, o personagem Orestes, interpretado por Othon Bastos, é um cafeicultor, dono de uma imensa propriedade rural. Seu negócio, como todo o mundo que o cerca, está em franca decadência. Entre a realidade e o delírio, a razão e a loucura, ele nutre sonhos de uma futura bonança financeira, enquanto caminha por ruínas e campos desabitados.

O incrível encontro é um documentário que se passa em 2000, ano que marca os cinco séculos da chegada dos portugueses ao Brasil. Conduzindo a narrativa do filme, artistas, técnicos e jovens da periferia do Rio de Janeiro se reúnem em um projeto desafiador – criar uma ópera popular, atravessada por cantos e danças, que narre a história dos 500 anos de uma perspectiva crítica e livre de convencionalismos.

Mais um documentário, Electra na Mangueira foi gravado em 2002, quando a equipe do Centro Experimental Teatro Escola (CETE), no Rio de Janeiro, se reuniu com a comunidade da escola de samba da Mangueira para produzir um espetáculo cênico-musical baseado em Electra, do dramaturgo grego Sófocles, em torno de 413 a.C.  Na produção seguinte, com o mesmo grupo, Electra no Municipala acompanha a posterior encenação do espetáculo no Theatro Municipal do Rio de Janeiro, em 2003. Nesta versão, a adaptação é em formato ópera, um momento simbólico de apropriação do espaço do Municipal pela comunidade do morro.

Em Plínio Marcos – Nas quebradas do mundaréu, a vida e a arte de um dos maiores dramaturgos do Brasil são retratadas a partir de entrevistas e riquíssimo acervo de imagens. Radical, dissonante e espalhafatoso, Plínio Marcos construiu uma obra original e cortante. Entrevistas e imagens de arquivo compõem o retrato de um artista genial, que abriu novos caminhos para o teatro moderno no país.

Lambusca, em O baiano fantasma é um imigrante nordestino que chega à cidade de São Paulo pleno de esperanças para mudar de vida. Aos poucos, a metrópole paulistana vai oferecendo a ele oportunidades de trabalho promissoras, como um emprego de cobrador de dívidas para uma truculenta quadrilha de agiotas. Diferente dos demais títulos, nesta comédia de Denoy de Oliveira, Calasso não está atrás, mas na frente das câmeras, como ator.

 

Crônicas não ditas

Nesta série de curtas-metragens, o público vê cinco histórias que se passam durante os anos mais duros da ditadura  no Brasil. No primeiro episódio, O intruso, em uma sexta-feira, 13 de dezembro de 1968, um farmacêutico ouve no rádio o pronunciamento doa instauração do AI-5, quando, de repente, uma pessoa misteriosa bate à sua porta. A seguir, em O encontro, segredos reveladores da tortura praticada por militares contra presos políticos vêm à tona no reencontro entre um general e sua filha adotiva, desaparecida desde a descoberta de sua verdadeira origem.

 

No terceiro episódio, O Happening, militantes, artistas e intelectuais se encontram em uma festa, que serve de pretexto para debates políticos velados, proibidos no período. Enquanto esperam atores que farão um happening, a narrativa vai flagrando aspectos das relações humanas em tempos sombrios. No seguinte, A mácula, uma mulher descobre que o homem que a criou esteve envolvido na tortura e morte de seus pais. O último episódio da série, A dor, é inspirado livremente na história da estilista e militante de direitos humanos Zuzu Angel, e relata o desaparecimento de um filho e a busca frenética de uma mãe por encontrá-lo.

 

Rumos na Coleção Itaú Cultural

Esta mostra reúne produções audiovisuais contemplados pelo Rumos Itaú Cultural, em diferentes períodos e com temáticas variadas.

O documentário Terra de Nazaré nasceu de um trabalho coletivo que reuniu criadores produções audiovisuais e mulheres que conviveram com Nazaré Flor, sob  a direção de Shaynna Pidori. Na tela, o resultado deste processo comunitário é palpável, em sintonia com a dimensão grandiosa da personagem principal. Por sua vez, Calins, de Thaís Borges e Alê Paiva, é um retrato delicado feito dentro da comunidade cigana. Filmando o cotidiano e os dramas de suas personagens com proximidade e leveza, o documentário toca em pontos fundamentais da agenda política atual, como a luta pela terra e a busca pela afirmação de identidade.

A pessoa é para o que nasce ganhou o prêmio de melhor filme de longa-metragem no Cine Ceará, em 2005. Dirigido por Roberto Berliner, ele narra a história de três irmãs cegas que viveram cantando e tocando ganzá em troca de esmolas nas cidades e feiras do Nordeste do Brasil. Fruto de um intenso contato com as personagens centrais, o filme capta a sua rotina e descreve a dimensão épica de suas trajetórias sem apelar para sentimentalismos.

Com direção de Fran Rebelatto, Pasajeras tem um olhar atento para o protagonismo feminino atrás e à frente das câmeras. Na Tríplice Fronteira, formada por Brasil, Paraguai e Argentina, mulheres indígenas e não-indígenas, brasileiras e paraguaias, cruzam os limites entre os países carregando mercadorias. Elas são chamadas de “paseras” e trabalham arduamente. O filme retrata suas histórias, lutas e esperanças. O documentário também celebra a força de heroínas reais, evocando sua ligação com antigas figuras mitológicas.

Em Depois da primavera, dois irmãos, Adel e Hadi Bakkour, deixam Aleppo, a maior cidade da Síria, para fugir da guerra civil que destrói o país e se mudam para o Rio de Janeiro, deixando pai e mãe. No Brasil, além de lidar com o processo de adaptação a uma cultura radicalmente diferente, eles se envolvem com a turbulência política dos últimos anos. O filme tem direção de Isabel Joffily e Pedro Rossi.

Como um verdadeiro road-movie, dirigido por Débora Mcdowell e Bea Morbach Transamazonia percorre a rodovia Transamazônica, captando encontros e paisagens entre as cidades de Marabá, no Pará, e Lábrea, no Amazonas. Melissa, uma mãe de 21 anos e Marcelly, que aos 35 está desempregada, são personagens que habitam essas paisagens. As duas são travestis que vivem pontos distintos dessa estrada que dilacerou o país.

Um casal de idosos lida com uma crise conjugal no longa ficcional Ela volta na quinta. Um de seus filhos quer ser pai, mas as exigências materiais para isso são muitas. O outro tem ocupação incerta. Todos estes dramas vividos em Contagem, periferia de Belo Horizonte, ganham significado universal nas mãos do diretor André Novais Oliveira.

Uma jovem recém-casada que padece de uma doença inexplicável, um marido sisudo e indiferente e um médico incapaz de descobrir o que acontece com ela são o mote de Almofada de Penas. Enquanto isso, os sonhos de noiva da protagonista se desfazem em alucinações e pesadelos macabros. A direção é de Joseph Speaker Nys.

O curta metragem Mãtãnãg, a encantada, de Shawara Maxakali e Charles Bicalho, é baseado na mitologia Maxakali. A indígena Mãtãnãg seguiu o espírito do marido, que faleceu por uma picada de cobra, até a aldeia dos mortos. Apesar de ultrapassarem juntos os obstáculos entre os mundos dos vivos e dos mortos a alma de Mãtãnãg precisa voltar para o mundo terreno.

Sertão de acrílico azul, dirigo por Marcelo Gomez e Karim Ainouz, é como um devaneio pelo sertão, por lugares remotos que revelam tradições e costumes de uma paisagem brasileira ao mesmo tempo primitiva e contemporânea, regional e globalizada. O filme deu origem ao longa Viajo porque preciso, volto porque te amo, de 2009.

 

SERVIÇO: 

Itaú Cultural Play

A partir de 16 de dezembro, sexta-feira
Em www.itauculturalplay.com.br

 

Mostra Julio Calasso

 

Plínio Marcos – nas quebradas do mundaréu (2014)

Duração: 92 minutos

Classificação indicativa: 16 anos (violência, drogas e nudez)

 

Longo caminho da morte (1971)

Duração: 83 minutos

Classificação indicativa: 16 anos (violência)

 

O incrível encontro (2011)

Duração: 60 minutos

Classificação indicativa: 14 anos (violência, nudez e drogas ilícitas)

 

Electra na Mangueira (2012)

Duração: 57 minutos

Classificação indicativa: 14 anos (drogas ilícitas, nudez e linguagem impropria)

 

Electra no Municipal (2013)

Duração: 56 minutos

Classificação indicativa: 14 anos (nudez e violência fantasiosa)

 

O baiano fantasma (1984)

De Denoy de Oliveira
Duração: 98 min

Classificação indicativa: 14 anos (nudez, drogas ilícitas, agressão física e verbal)

 

Crônicas não ditas

 

Crônicas não ditas – em cinco episódios (2014)

De Cláudia Shapira, Tatiana Lohmann, Azul Serra e Bianca Turner

Duração: 9 minutos por episódio

Classificação indicativa: 16 anos (temas sensíveis e violência)

 

Coleção Itaú Cultural – Filmes Rumos

 

Terra de Nazaré (2019)

De Shaynna Pidori

Duração: 40 minutos

Classificação indicativa: livre

 

Calins (2018)

De Thaís Borges e Alê Paiva

Duração: 53 minutos

Classificação indicativa: 12 anos (drogas ilícitas)

 

A pessoa é para o que nasce (2005)

De Roberto Berliner

Duração: 83 minutos

Classificação indicativa: livre

 

Pasajeras  (2021)

De Fran Rebelatto

Duração: 73 minutos

Classificação indicativa: 10 anos (drogas ilícitas, violência e medo)

 

Depois da Primavera (2021)

De Isabel Joffily e Pedro Rossi

Duração: 85 minutos

Classificação indicativa: 14 anos (drogas ilícitas, violência e linguagem imprópria)

 

Transamazonia (2019)

De Débora Mcdowell, Bea Morbach

Duração: 75 minutos

Classificação indicativa: 12 anos (nudez e drogas ilícitas)

 

Ela volta na quinta (2014)

De André Novais Oliveira

Duração: 107 minutos

Classificação indicativa: 12 anos (drogas ilícitas, conteúdo sexual e linguagem impropria)

 

Almofada de penas (2018)

De Joseph Speaker Nys

Duração: 12 minutos

Classificação indicativa: 12 anos (violência)

 

Mãtãnãg, a encantada (2019)

De Shawara Maxakali e Charles Bicalho

Duração: 14 minutos

Classificação indicativa: 10 anos (drogas ilícitas, violência e nudez)

 

Sertão de acrílico azul piscina (2004)

De Marcelo Gomez e Karim Ainouz

Duração: 26 minutos

Classificação indicativa: 12 anos (violência)

 

Itaú Cultural  

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(Com informações da Assessoria)

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Vanessa Serra é jornalista. Ludovicense, filha de rosarienses.

Bacharel em Comunicação Social – habilitação Jornalismo, UFMA; com pós-graduação em Jornalismo Cultural, UFMA.

Atua como colunista cultural, assessora de comunicação, produtora e DJ. Participa da cena cultural do Estado desde meados dos anos 90.

Publica o Diário de Bordo, todas as quintas-feiras, na página 03, JP Turismo – Jornal Pequeno.

É criadora do “Vinil & Poesia” que envolve a realização de feira, saraus e produção fonográfica, tendo lançado a coletânea maranhense em LP Vinil e Poesia – Volume 01, disponível nas plataformas digitais. Projeto original e inovador, vencedor do Prêmio Papete 2020.

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